Em meio à crise que vem se desenhando entre Brasil e Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu se posicionar. Ele comentou com firmeza sobre a decisão do ex-presidente norte-americano Donald Trump de aplicar tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros — uma medida que deve entrar em vigor já nesta sexta-feira, 1º de agosto.
“Estamos tratando isso com muita seriedade. Mas seriedade não é sinônimo de subserviência”, disse Lula em entrevista concedida ao jornal The New York Times, realizada na terça-feira (29), direto do Palácio da Alvorada, em Brasília. “Eu trato todo mundo com respeito. Agora, quero ser tratado com respeito também”, reforçou.
A fala de Lula vem num momento em que a relação diplomática entre os dois países parece mais fria do que nunca. Segundo ele, a Casa Branca não tem dado sinais de abertura para conversa. “Tentei contato. Pedi ao meu vice, ao ministro da Agricultura, ao da Economia, que procurassem seus pares nos EUA. Até agora, ninguém respondeu. Ninguém quer diálogo”, reclamou o presidente, visivelmente incomodado.
Durante a entrevista, o tom de Lula oscilou entre a firmeza e o apelo ao diálogo. Ele deixou claro que o Brasil não vai se curvar à pressão americana. “A gente sabe que os EUA são uma potência — econômica, militar, tecnológica. Isso é fato. Mas isso não nos intimida. Nos preocupa, sim. Mas não nos faz baixar a cabeça.”
O petista ainda explicou que o Brasil vem tentando, há meses, resolver a questão pelas vias diplomáticas. “Só pra vocês entenderem: já fizemos umas 10 reuniões com o Departamento de Comércio dos EUA. E no dia 16 de maio, a gente mandou uma carta, formal mesmo, pedindo resposta. A resposta veio pelo site do Trump, anunciando as tarifas contra o Brasil”, contou, num tom de certa frustração.
“Espero que a civilidade volte a existir na relação Brasil-Estados Unidos. Porque, sinceramente, o jeito como ele respondeu mostra que não tá disposto a conversar”, afirmou Lula.
Questionado sobre o tom mais duro de Trump nas redes sociais, especialmente na Truth Social — plataforma que o ex-presidente tem usado para fazer declarações controversas —, Lula foi direto: “É vergonhoso ver um ex-presidente dos EUA fazer ameaça comercial em rede social. Isso não é diplomacia, isso é pressão pública.”
Segundo ele, há maneiras mais maduras de lidar com conflitos desse tipo. “Quando tem um problema político ou comercial, a gente pega o telefone, liga, marca uma conversa. É assim que se faz. O que não dá pra aceitar é esse tipo de imposição, de cobrança de imposto na marra, quase como um ultimato”, desabafou.
O New York Times apontou que Lula talvez seja hoje o único líder mundial que está realmente encarando Trump de frente, sem baixar o tom. Uma posição que tem sido observada com curiosidade — e um pouco de apreensão — por analistas internacionais.
A tensão agora gira em torno de como o Brasil vai reagir, caso as tarifas realmente entrem em vigor. Até o momento, o governo brasileiro ainda aposta em reverter a decisão via negociações diplomáticas — mas já se fala, nos bastidores, em medidas de retaliação.
Enquanto isso, Lula segue insistindo que o caminho deve ser o diálogo. Mas com dignidade. “O Brasil não vai aceitar ser tratado como país de segunda categoria”, disse. “Se eles quiserem conversar, estamos prontos. Mas não vamos implorar.”